05/05/2014 - FOLHA de S. PAULO
O governo se torna cada vez mais refém da ficção que vem sendo criada
pelos seus marqueteiros. Com dificuldades de enfrentar o debate da –e
na– realidade, inventa dados e tenta transformar seus adversários no que
gostaria que eles fossem.
Pressionado pela queda nas pesquisas, o petismo recorre ao terrorismo em
escala, tentando demonizar as oposições para confundir e dividir o país
–reeditando o conhecido "nós e eles".
O "nós" são os "patriotas" do governo e os que se servem de fatias da
administração federal como contrapartida ao alinhamento e ao silêncio
obsequioso. Ou, pior, os que se prestam à posição vergonhosa de atacar
quem cobra transparência e exige a apuração sobre a corrupção endêmica
que atinge o país.
O "eles" são as oposições e os brasileiros que, nesta versão
maniqueísta, ao combater e criticar os malfeitos do governismo,
trabalham contra o Brasil. Simples assim.
Esta é a estratégia que restou, desde que o PT perdeu discursos e abandonou as suas bandeiras históricas.
Primeiro foi o do pretenso monopólio da ética, destruído pelos maiores
escândalos da história da República, em 12 anos de governo. Depois, o
conceito de um governo que só governa para os pobres. Será?
Enquanto a inflação corrói o salário do trabalhador e o reajuste do
Bolsa Família repõe apenas metade da inflação dos últimos três anos, as
"elites" tão demonizadas pelo PT não têm do que reclamar.
As instituições financeiras amealham lucros recordes, grandes
empresários, selecionados a dedo pelos mandatários da Corte, recebem
empréstimos bilionários a juros camaradas.
Quem mais reclama –e tem motivos de sobra para isso– são os mais pobres.
Afinal, são eles que penam, horas a fio, todos os dias, no trânsito,
porque as obras de mobilidade urbana prometidas simplesmente não
aconteceram.
Que vão ao hospital público e não conseguem ser dignamente atendidos,
porque milhares de leitos foram fechados pela irresponsabilidade
oficial.
São os mais pobres que precisam das creches prometidas e não construídas.
É a classe média que não tem como blindar os carros e tem medo de andar
na rua, porque o governo acha que segurança pública não é assunto do
qual deva se ocupar, terceirizando responsabilidades a Estados
endividados e prefeituras beirando à insolvência.
A verdade é que, por mais que o governo tente fugir da realidade, ela se
impõe todos os dias. Denúncias sobre as falcatruas na Petrobras não
param de surgir e a imprensa já lança luz naquele que parece ser o
grande temor do governo: os negócios realizados nos fundos de pensão das
estatais, que têm tudo para desafiar a paciência do mais crédulo dos
brasileiros.
AÉCIO NEVES escreve às segundas-feiras nesta coluna
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